sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

episódio 3

querida Arles

Oii, tudo bem?

Por aqui (se eu disser maravilhoso estarei exagerando, vou com um simples e educado, bem) tudo bem.
Não me encare como uma pessimista ou sem entusiasmo, é que chega um momento que a euforia passa e você se acostuma com a "vida nova", mesmo que seja por alguns meses. E no fundo eu sei que o que estou vivendo aqui vai me marcar pra sempre.

No último post comentei que falaria mais sobre: micos, comida, saudade, a casa e festas.

MICOS:
Bom, não vou lembrar de todos porque são muitos (pausa para um sorriso amarelo), sério sem exageros agora. Vamos aos mais marcantes,

- como quando, em um belo dia acordei e passando no corredor para usar o banheiro um (dos vários) morador da casa me pergunta: "ça va?".
Gente eu tinha acabado de acordar e o cara me pergunta, "já vai?" respondi indignada com a pergunta, como assim já vou, acabei de acordar! Então disse: é, é to indo ao banheiro. Detalhe, respondi em espanhol, e estou na França. Mas ok, ele entendeu! rs
Importante comentar que "ça va?" é o habitual, "tudo bem?", mas que parece "já vai?" isso parece!

Pausa para um P.S: quem já morou fora por um tempo sabe, a gente literalmente surta até a cabeça se adaptar a nova língua, logo, usamos todas as referências que temos para se comunicar. Aliás, essas referências estão me salvando de cada uma! rs

- desde que cheguei confundia a palavra "merci - obrigado" com "pardon - desculpa" na hora de usá-las. Então, sempre que esbarrava em alguém na rua ou pedia passagem, soltava logo um "merci" com gosto. Mas, como assim alguém agradece por ter esbarrado em outra pessoa?! E só caia a ficha depois que falava.. rs

- fui em um restaurante almoçar, animada que só, era domingo, meu primeiro restaurante na França. Fiz meu pedido, agradeci, comi e estava delicioso! Na hora de pedir a conta, esqueci qual era o nome em francês, olhei na bolsa e meu livrinho (salva vidas - com todas as palavras de português para francês) não estava na bolsa. Pensei, sinal de dinheiro deve ser igual no mundo inteiro.. e comecei a fazer mímica pro cara, sinal de dinheiro com a mão e nada. Levou uns 2min (eternos) para ele entender o que eu queria.
Então ele disse: "L'addition Mdlle?". Eu com sorriso amarelo fiz que sim com a cabeça, esbanjando toda convicção que me restava, paguei e fui embora rapidinho. Até passar pela porta e vê-lo morrendo de rir de mim lá dentro.


COMIDA
Sempre gostei de cozinhar, quando era pequena ficava agarrada na minha mãe, sempre perguntava os passo-a-passos das receitas. Gosto de inventar comida diferente e lá pelo meu segundo ano de faculdade comecei a cozinhar comida de outras nacionalidades, principalmente japonesa.
Até ai, ok. Mas, quando cheguei aqui, minha vontade era de cozinhar muito, só que ao contrário.
Até cheguei a dar uma olhada no restaurante universitário da cidade (vendem 10 refeições por 30 euros), fazendo cálculos complexos conclui que ninguém faz uma refeição só por dia (até aqui nenhuma novidade), e que de qualquer jeito eu teria que enfrentar o fogão.
Lá fui eu pro mercado, decidida a gastar o tempo que fosse para encontrar comidas amigáveis e baratas. Logo que comecei a "surpresa", queijo, massa, pão, vinho.. muito barato, carne, frango, peixe, literalmente um roubo!
Passei por uns "perrengues", no começo não foi fácil, até começar a encontrar coisas que pudessem ser substituídas. Até conhecer a feira livre aos sábados, tradicional "Marché" que vende desde queijo, maça, alface até perucas, sim, perucas.
Agora preciso me controlar para não comer demais, peguei jeito pela coisa! rs

esse aí é um almoço básico, com MUITO "fromage"!

SAUDADE:
Engraçado, algumas pessoas já haviam comentado comigo, mas sentir na pele é outra história.
Quando você está longe suas emoções afloram, é tudo muito intenso, felicidade demais, tristeza demais, animação demais. Tudo muito ÃO!
As vezes dá saudade do cheiro do feijão da mãe, voz dos sobrinhos, perfume do pai, risada dos amigos e principalmente dos abraços, mas com os dias vem também o equilíbrio em saber que isto é momentâneo. E é tanta novidade, que o desafio da saudade fica para as horas de luz apagada, quarto vazio e edredons gelados.

A CASA, FESTAS:
Já comentei sobre a casa por aqui, e nessa época com calefação, é uma casa perfeita.
Por outro lado vamos combinar que manter a ordem e a limpeza com 7 pessoas, é no mínimo complicado.
Entre as refeições é fila para usar o fogão, para lavar louça. Fila para lavar a roupa na máquina, usar o varal. Ainda bem que banheiro tem pra todos. rs

Toda sexta-feira tem festa, em casas aleatórias dos estudantes da faculdade.
Lembrando que eles dançam até sem música, e curtem uma bebidinha.. juntou 3 ou mais, já é festa!
A cidade é pequena, então festas improvisadas são bem-vindas por aqui.

A menina dos meus olhos nos próximos meses..

pés andarilhos nas margens do "Le rhône"

Vou ficando por aqui. Até o próximo encontro!

bisous et à bientôt.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

notícias quentinhas..

Oii,
Quanto tempo né?!
Pretendo não demorar muito entre uma postagem e outra, além de perder muita informação, o post seguinte sempre ficará enorme e exaustivo (pra vcs e pra mim).
E por aqui cada dia um desafio novo! Tem dia, que sem "zueira", minha cabeça dói, tico e teco estão trabalhando dobrado (e logo eles que estavam pensando em ócio criativo na Europa. Que dó!). Mas estou bem melhor no idioma, participando de algumas aulas na faculdade.. conversando mais.

Falando em faculdade este post será dedicado para comentar sobre detalhes daquele lugar que dominará meus próximos 5 meses, "L'école Nationale Supérieure de la Photographie":

o que tem:
- impressoras "bacanérrimas"
- laboratório PB
- laboratório cor
- biblioteca "surreal"
- gente maneira, simpática e descolada de tudo que é canto do mundo

No início da semana passada apresentei meu portfólio no seminário crítico para residentes e alunos do segundo ano. Os alunos se reúnem com um professor em uma sala e cada aluno por vez vai mostrando o que tem desenvolvido, seja em vídeo, impresso, virtual, deixando sempre a criatividade rolar. Teve até um aluno que mostrou seu trabalho com projeção sobre uma placa de alumínio...
É normal cada aluno comentar sobre o trabalho do outro, opinar, interagir e sugerir referências, tudo intermediado pelo professor. Esses encontros são descontraídos e duram 2 dias inteiros com pausa pro almoço e cafés entre manhã e tarde.
As aulas aqui são em período integral, mas com um cronograma muito aberto, tem dia que não tem aula, ou tem conferência e todos os anos podem participar.
O curso é de 3 anos, mas antes de ingressar o aluno deve ter feito pelo menos 2 anos de outro curso de graduação, logo 5 anos de faculdade.
E nem tudo são flores, para usar o lab pb por exemplo, tem que ter seus próprios químicos, papel fotográfico, tudo pode ser comprado pela internet e recebido em casa. Para impressões, precisa ter um cartão (comprado na escola mesmo e os preços variam dependendo dos tipos de papéis e impressoras).

E sabe o que é mais legal?! A estrutura é ótima, não tem do que reclamar, mas isso está diretamente ligado à educação deles em zelar pelo patrimônio coletivo, desde os equipamentos até os livros. Rola até um esquema de empréstimo de equipamentos da faculdade para o aluno, pode ficar uma até duas semanas com câmeras de médio e grande formato, acessórios.. em casa ou até viajar.
O analógico ainda é um bebelô, não um mito.rs Todos, sem exceções, fotografam muito com câmera analógica. Não digo só pelos alunos, mas a cidade respira fotografia! Com inúmeras exposições, eventos ligados a fotografia, feiras e o tão comentado: "Encontro anual de Fotografia de Arles" (clique aqui para saber mais).
E nesse processo de "respirar fotografia", percebi que no Brasil mal produzo projetos pessoais, todos são oriundos de disciplinas da faculdade ou com fins econômicos, e aqui os projetos são SEMPRE pessoais. Bom, cada macaco e didática no seu galho, essa intereção será boa para aumentar minhas referências imagéticas. E experiências transculturais são sempre enriquecedoras em todos os âmbitos.

Com essa chuva de referências e vivências estou com ideia de 4 trabalhos pessoais (pra quem não fazia isto "em casa", acho que peguei o jeito da coisa..rs), um deles, o oficial - que apresentarei no Brasil quando retornar, fala basicamente sobre Arquitetura Romana. Mas com o tempo vou falar melhor sobre eles (4) por aqui, precisam ficar mais maduros e concretos primeiro! rs

Podem brigar comigo, ao escrever esse post percebi que não tirei nenhuma foto da escola.. no próximo eu coloco. Por enquanto, fotos novas da cidade:


No próximo encontro vou falar:
- micos
- comida
- saudade
- vivência, casa, festas..


À bientôt,

Shay

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Salut, Arles!

Oi amigos,

primeiro post em solo Francês, meu primeiro dia oficial em Arles. Que emoção!
Sai na segunda-feira (31) pelo Aeroporto de SP, coração apertadinho e calma que só.
Fiz Guarulhos / Madrid e de Madrid para Marseille, depois de pegar 2 voos, um bus e um trem
cheguei em Arles 16h (no Brasil era 13h) debaixo de chuva com direito a floquinhos de neve.

A casa é enorme, mais conhecida entre os estudantes como "Chateau", castelo em português. Eu não estava entendendo o porque até conhecer toda a casa, enorme, de uns 4 andares e cada uma das 7 pessoas que aqui moram tem o seu quarto.
Fui recepcionada com um belo jantar, risoto ao fungui e queijo de acompanhamento vinho.
Tudo uma delícia, já fui ao mercado com Nico e Anabelle, como é tudo muito barato! Mas não posso pensar na conversão para o Real.. se não, não se compra nada. rs
Ainda estou com a cabeça de fuso-horário brasileiro..rs

Um resumo do meu primeiro dia:
- Visitei um pouco da cidade
- Conheci a faculdade e suas instalações que são incríveis considerando que é uma faculdade pública.
- Dei informações para uns turistas sobre localização. (Mas nem comentei que tinha acabado de chegar na cidade, fui tão boa atriz que devem ter pensado que nasci em Arles. rs)
- Comprei uma bota forrada em uma mega liquidação (quase comprei outras coisas, mas me controlei, pensar como estudante e não como turista faz controlar mais a grana).
- comprei macarons e me deliciei com os diversos sabores enquanto preparava o jantar.
- não vou nem comentar do frio que esta de "lascar". E pra melhorar hoje pela manhã notamos que estamos com problemas na calefação, logo, sem calefação para dormir. O vizinho da frente ficou com dó da brasileira e emprestou o dele pra mim (amém Senhor por essa alma bondosa! rs).

Desafios:
- me aquecer no frio com um vento que atravessa o corpo inteiro 2x.
- a língua, totalmente diferente.. parece que sou uma leiga em francês. Mas já me disseram que é questão de tempo.
- comida diferente, costumes, cultura, tradições. (precisa estar disposto a viver tudo e se desapegar ao seus próprios costumes)
- os mercados aqui não oferecem sacolas, hoje passei no mercado e esqueci desse detalhe.. tive que carregar minha cabeça de alho na mão. ahahahaha

Coisas boas de compartilhar:
- do aeroporto até o trem conheci Jena, encantadora, me ajudou com os tickets para o trem. Se ofereceu para me apresentar Marseille e locais bacanas para fazer compras.
-toda pessoa precisa viver uma experiência transcultural dessas! Hoje conheci um chileno, colombiano, venezuelano, portuguesa, americano. E está só começando.
- todos são muito educados, é "bonjour" pra lá "bonjour" pra cá..mesmo que já tenha passado do meio dia. Se você chega perto da faixa de pedestres os carros te deixam prosseguir.
- Ahhh, e eles me chamam de Shei. ahahhaha

Arles é linda, encantadora e amarela.
Com o vento congelante que fez hoje não consegui andar por toda cidade, conheci um pedacinho só nos arredores da escola, fui entrando nas vielas, caminhos estreitos divididos por pessoas e carros..uma delícia. Abaixo fotos:


sortie de secours

théâtre antique

bonjour, Arles!

ruas apertadinhas

fim de tarde